Espaço Confinado - Exemplo

O objetivo desse artigo é analisar alguns pormenores acerca dos espaços confinados, bem como debater alguns conceitos da NR-33 e a nova NBR-16577 publicada em 28/03/2016, além de repassar alguns aspectos relacionados principalmente às experiências vivenciadas nesses anos de trabalho com Espaços Confinados (EC).

O que é Espaço Confinado?

1 – Identificação do EC

A NR-33:

  • 33.1.2 - Espaço Confinado é qualquer área ou ambiente não projetado para ocupação humana contínua, que possua meios limitados de entrada e saída, cuja ventilação existente é insuficiente para remover contaminantes ou onde possa existir a deficiência ou enriquecimento de oxigênio.

O guia técnico da NR-33 elaborado pela Fundacentro:

  • Um espaço será caracterizado como confinado quando atendidos todos os requisitos previstos na sua definição (ver quadro I – Caracterização de Espaços Confinados).

Espaço Confinado - tabela

A NBR 16577:

  • Espaço confinado é qualquer área não projetada para ocupação humana contínua, a qual tem meios limitados de entrada e saída ou uma configuração interna que possa causar aprisionamento ou asfixia em um trabalhador e na qual a ventilação é inexistente ou insuficiente para remover contaminantes perigosos e/ou deficiência/enriquecimento de oxigênio que possam existir ou se desenvolver ou conter um material com potencial para engolfar/afogar um trabalhador que entrar no espaço.

A norma ainda traz mais 2 conceitos:

Espaço confinado “não perturbado” - característica técnica do espaço confinado, definida no cadastro com os riscos inerentes ao local, antes de o trabalhador adentrar neste espaço. As medidas de controle de riscos são norteadas pela permissão de entrada e trabalho (PET);

Espaço confinado “perturbado” - característica da alteração ocasionada pela(s) atividade(s) que será(ão) executada(s) no interior do espaço confinado, sua dinâmica de evolução de riscos associada aos riscos presentes no espaço confinado “não perturbado”. Neste caso, as medidas de controle de riscos são baseadas na análise preliminar de risco (APR).

Espaço Confinado - tabela

Fonte: Maersk

Logicamente que esses conceitos todos darão um “nó” na cabeça de todo profissional de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), para saber se é ou não um EC, principalmente com esse novo conceito de ser ou não “perturbado”.

Pegando o exemplo do tanque acima, teremos diversas fases de intervenção, porém durante isso – e levando em consideração os conceitos – é ou não um EC?

Espaço Confinado - Gráfico

Podemos dizer que a fase 3 do trabalho, não será mais caracterizado como EC, pois não terá riscos de atmosfera perigosa, já na fase 4 ocorrerá novamente a perturbação devido ao hidrocarboneto da pintura.

O problema é que todos os envolvidos no processo geralmente querem que o equipamento/instalação tenha uma fórmula simples de ser ou não um EC. Defendo a tese de uma APR bem elaborada na qual o profissional defina bem claramente isso de acordo com a fase do trabalho. Essa nova classificação de perturbado ou não nos dá a possibilidade dessa variação.

Lembrando sempre que parece ser simples descaracterizar um EC, porém o Responsável Técnico tem que ter muito cuidado, pois em uma área com risco de vazamentos, até uma caixa de válvulas - que não tem meios de entrada e saída limitados - pode se tornar um EC se houver um vazamento de produto tóxico no qual a densidade for maior que a do ar.

Recordem o caso de Tangará da Serra, no qual o local também não possuía entrada e saída limitada, porém houve o acidente e acabou vitimando um bombeiro.

Veja mais em: Só Notícias

Saliento também que se o local não é um EC, não precisamos aplicar a NR-33, ou seja, não precisamos de vigia, não precisamos de medidas de prevenção, etc. Sempre penso nisso na hora de identificar um EC.

2 – Equipamentos de detecção de gases:

A NR-33 fala sobre monitoramento e avaliação da atmosfera no interior dos EC, já a NBR 16577 espocou toda essa trama relacionada à detecção de gases e equipamentos, trazendo os conceitos de correlação de gases, compostos orgânicos voláteis (COV ou VOC) e até os tipos de ajustes nos detectores. Nesse último ponto, ela trouxe as figuras do auto-zero, teste de resposta (bump test), ajuste e calibração.

A dificuldade hoje paira no ajuste, que era o que chamávamos de calibração, e na calibração citada na norma, que deve ser realizada em laboratório acreditado pela ABNT NBR ISO IEC 17025.

Irei direto às principais nuances dessas medições e equipamentos, que nem sempre são conhecidas.

A primeira é em relação aos cuidados com equipamento, principalmente em relação ao “falso zero”. Sempre que detectarmos qualquer alteração nos gases medidos, devemos esperar o equipamento voltar aos parâmetros de normalidade em um local arejado, e não desligar ou dar o auto-zero logo após, pois o sensor pode entender que aquela alteração é o novo zero.

Exemplo:

Vamos medir a atmosfera em um EC com detector 4 gases de H2S, CO, LEL e O2, e acusou 13 ppm de H2S, se desligarmos o detector ou realizarmos o auto-zero antes de voltar a 0 ppm, o sensor pode entender que os 13 ppm é o novo zero, nesse caso, em uma outra medição, 1 ppm seria na realidade 14 ppm. É uma possibilidade remota mas existe, e nesse caso devemos fazer o bump test , ajuste ou calibração.

A segunda é em relação a correlação de gases, pois a maioria dos sensores de explosividade dos hidrocarbonetos são para Metano.

Espaço Confinado -Gráfico

A NBR 1657716577 preconiza que não se deve liberar trabalhos em EC com Limite de Explosividade acima de 10%, isso para qualquer substância inflamável, por isso às vezes estamos medindo um hidrocarboneto diferente com um sensor de metano e achamos que está correto. Dessa forma é imprescindível conhecer a substância dentro do EC.

Exemplo de correlação:

Espaço Confinado - tabela

Quando trabalharmos com uma cadeia de gases, como Gás Natural por exemplo, é importante conhecer o percentual de todas. Na corrente de gás natural do RN temos do metano ao decano, porém 80% dessa é metano, o que garante tranquilamente as medições com sensor de metano.

Conhecer o processo e conhecer as substâncias envolvidas, é o mais importante para o profissional de SST na execução de qualquer intervenção em EC.

3 – Ventilação para trabalhos em espaços confinados:

O Anexo B da NBR 16577 esmiuçou mais as recomendações que já eram previstas no guia técnico da NR-33, porém sem grandes alterações.

Hoje no mercado encontramos diversos tipos de ventilação, inclusive com motoventiladores a prova de explosão, mas o importante é também conhecer que tipo de substância você precisa ventilar ou exaurir para utilizar o equipamento correto.

Certamente o profissional sempre busca uma vazão adequada, mas dependendo do processo, só isso não resolve.

Vamos aos exemplos práticos:

Espaço Confinado - tabela

Fonte: Clear Jet

No caso de jateamento de granalha em um EC, no qual precisamos exaurir, pois a atmosfera fica insuportável dentro do EC, se colocarmos um motoventilador com duto para exaustão, literalmente vamos arrebentar o equipamento, pois a granalha ficará incrustada nas pás (até danificando) e motor. Nesse caso devemos utilizar um soprador venturi pneumático, pois a eficiência é maior.

Observação: o mesmo acontece com tintas – principalmente epóxi – experiência própria!

Citando o caso acima, e se estivermos em um ambiente onde não podemos soltar a granalha, como áreas onde haja outros trabalhadores ou sejam ambientalmente sensíveis?

Teremos que colocar o soprador, colocar um duto e um filtro no final para granalha não espalhar no ambiente.

Por fim, existe muito mais a respeito de EC – logicamente – porém demonstramos aqui coisas que nem sempre achamos em normas, as dificuldades vivenciadas e possíveis soluções.

Lembrando: sempre podemos nos deparar com riscos não previstos!


André Vicente Quadrado
Eng. Sanitarista e Ambiental / Eng. de Segurança do Trabalho
CREA 211447356-2